Não é novidade: muitos zootecnistas fazem carreira hoje na área de preservação ambiental. Mas neste setor, o trabalho pode envolver diversos segmentos. Um destes – que é bem pouco falado – é a conservação de recifes de coral. O zootecnista, pesquisador e professor Leandro Godoy, coordenador do Projeto ReefBank, é um dos profissionais da Zootecnia que resolveu se arriscar nesta área.

“Quando falamos de uma ação antrópica no ambiente terrestre, como por exemplo numa floresta, isso facilmente pode ser identificado e percebido aos nossos olhos. Porém, o mesmo não acontece para o ambiente aquático. A maioria das pessoas não sabe o que está acontecendo embaixo d’água. Essa percepção norteou o principal objetivo do ReefBank: aliar pesquisa científica com educação ambiental para conservação dos recifes de coral”, contextualiza.

Zootecnista Leandro Godoy (Foto: arquivo pessoal)

Atualmente, o projeto possui base administrativa em Porto Alegre, junto à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As suas atividades de campo, porém, são realizadas no Sul da Bahia, mais precisamente em Arraial D’Ajuda, ao lado de Porto Seguro. O nome do projeto – ReefBank – faz alusão à “recife congelado” ou “preservado das ameaças”. O nome em inglês foi escolhido por ser estratégico também para divulgação internacional das atividades.

Leandro contextualiza a criação do projeto com um problema socioambiental grave que o mundo vive hoje: os recifes de coral podem se tornar o primeiro ecossistema a desaparecer da face da Terra pela ação do homem.

“Cerca de 40% dos recifes de coral do planeta já morreram e isso aconteceu praticamente nos últimos 5 anos. O clima do planeta está mudando de forma acelerada, isso é cientificamente comprovado e não deveria ser dúvida para mais ninguém. Eventos climáticos estremos já são cada vez mais recorrentes. 90% do excesso de calor retido na atmosfera é absorvido pelo oceano e 30% do CO2 emitido pela queima de combustíveis fósseis também é absorvido pelo oceano. Dessa forma, é o ambiente marinho quem tem sofrido diretamente os efeitos da crise climática. A água do oceano está cada vez mais quente e mais ácida, o que tem levado a mortalidades em massa dos corais”, explica.

Além de Leandro, a equipe do ReefBank é formada por 5 pesquisadores, 12 alunos (graduação e pós-graduação) e 2 designers. Dentre os alunos, o projeto conta com acadêmicos de Zootecnia, Biologia, Medicina Veterinária, Engenharia de Pesca, Técnico em Aquicultura e Biotecnologia.

(Foto: Divulgação/ReefBank)

O TRABALHO DO PROJETO

Segundo Leandro, do ponto de vista da pesquisa científica, o projeto desenvolve estudos para conhecer, por exemplo, o tempo de viabilidade dos gametas (espermatozoides e óvulos) na água, o processo de motilidade do espermatozoide e a sensibilidade desses gametas à diversos fatores ambientais.

“Nós estamos desenvolvendo protocolos de congelamento, da mesma forma que se faz para outras espécies de animais. Queremos criar um banco de gametas congelado. No âmbito da educação ambiental, nossa equipe desenvolve diversas atividades para popularizar o conhecimento sobre recifes de coral e despertar a consciência ambiental na população”, explica.

(Foto/Reprodução: Instagram)

Dois motivos principais motivaram a escolha do Sul da Bahia como local para o desenvolvimento das atividades de pesquisa do grupo. O primeiro, é porque o local reúne uma das maiores biodiversidades marinhas do Oceano Atlântico Sul. O segundo motivo é que Leandro é pesquisador associado à Rede de Pesquisas Coral Vivo e o projeto Coral Vivo possui uma base de pesquisa em Arraial D’Ajuda, onde são conduzidas parte das nossas atividades.

“Geralmente as análises prévias para avaliação da qualidade dos gametas, testes de toxicidade, congelamento e fertilização in vitro são realizadas na base. Já análises que demandam técnicas e equipamentos mais sofisticados como bioquímica, biologia molecular, genética e microscopia eletrônica, são realizadas na UFRGS”, detalha, ressaltando que a área de estudo é o Parque Municipal Marinho do Recife de Fora. Além das atividades de pesquisa, o grupo tem ações de extensão focadas na educação ambiental para conservação do ambiente marinho. Essas atividades são realizadas em escolas de Porto Alegre e em breve também serão realizadas em cidades do litoral gaúcho.

Neste momento, os estudos do grupo estão direcionados para três espécies de coral-cérebro endêmicas da costa brasileira, são elas: Mussismilia braziliensis (coral-cérebro-da-bahia), Mussismilia harttii (coral-couve-flor) e Mussismilia hispida (coral-cérebro). A escolha é devido essas espécies serem as principais construtoras dos recifes brasileiros, ou seja, são corais pétreos (com esqueleto de carbonato de cálcio) fundamentais para a formação dos recifes. Além disso, a espécie M. harttii já se encontra ameaçada de extinção.

Mussismilia harttii, uma das espécies estudadas no projeto (Foto/Reprodução: Instagram)

“Outra razão importante para a escolha dessas espécies para os nossos estudos é que elas possuem reprodução sexuada, com liberação de gametas na água. Isso nos permite coletar os gametas e desenvolver inúmeros experimentos de biotecnologia, assim como já fazíamos com peixes”.

ZOOTECNIA NA CONSERVAÇÃO

Segundo Leandro, a Zootecnia tem um “ângulo pouco percebido”, que é, justamente, voltado para a conservação ambiental.

“Na Zootecnia dominamos técnicas de nutrição, reprodução, melhoramento genético, bem-estar, etc. Porém o que muitos não percebem é que essas técnicas não são aplicadas apenas à animais de produção. No momento em que acontece um colapso ambiental, ou que um evento específico destrói um dado habitat, o domínio dessas técnicas pode assegurar a conservação ex situ de uma espécie. Essa manutenção ex situ (fora do ambiente natural) pode ser temporária, permitindo futuramente a reintrodução da espécie na natureza, ou, caso a espécie não possa ser reintroduzida, pelo menos sua conservação está garantida”, ressalva. O professor relembra, ainda, que zootecnistas podem atuar profissionalmente na conservação ambiental, na composição de equipes de áreas de proteção da biodiversidade e conservação da fauna silvestre.

Leandro e Dra. Andrea Galuppo preparando soluções de congelamento (Foto/reprodução: Instagram)

APOIO

Entre os apoiadores financeiros do projeto estão a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). O Projeto Coral Vivo e o Instituto Coral Vivo também são parceiros da iniciativa e apoiam financeiramente em termos de logística, equipe de apoio, além de fornecer a Base de Pesquisa em Arraial D’Ajuda para a realização das atividades.

“Estamos buscando novos parceiros, sejam públicos ou privados, que tenham interesse em investir no nosso projeto, para que dessa forma possamos expandir e intensificar nossas atividades de pesquisa e extensão para conservação dos recifes brasileiros”, contextualiza Leandro.

Para conhecer o Instagram do projeto, clique aqui. Para conhecer o Facebook, clique aqui. Para mais informações sobre o ReefBank, envie um e-mail para projetoreefbank@gmail.com.

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