Zootecnista pela Universidade Estadual de Maringá (2003), com mestrado (2005) e doutorado (2009) em Zootecnia (Produção Animal – Melhoramento Genético – Apicultura) pela mesma instituição, Fabiana Martins Costa Maia é professora Associada da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus de Dois Vizinhos, na área de Melhoramento Genético Animal e Apicultura.

Na entrevista concedida à ABZ, Fabiana detalha o que é e a importância do melhoramento genético de abelhas. Confira abaixo a importância que a atividade pode ter para potencializar a criação destes animais:

 

Em que consiste exatamente o melhoramento genético de abelhas? O que este tipo de atividade pode potencializar na criação destes animais?

 

Essa pergunta me fez lembrar do Prof. Dr. Elias Nunes Martins (Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Zootecnia e Programa de Pós-Graduação em Zootecnia) quando iniciei a atividades no grupo de pesquisa que ele coordenava: “Fabiana, o melhoramento genético em si é o mesmo para todas as espécies, porém cada uma delas tem suas particularidades, e esse é o desafio!”.

Exatamente, o melhoramento de abelhas consiste na identificação das melhores rainhas, por meio de avaliação genética de modo a garantir o desempenho esperado na próxima geração. E não para por aí: trata-se de um conjunto de estratégias (Figura 1) que precisa ser elaborado e trabalhado de maneira conjunta entre apicultores, pesquisadores, técnicos extensionistas e autoridades governamentais.

 

E aí começam os desafios… vou citar um deles, o mais popular: o controle do acasalamento. Naturalmente o acasalamento de uma rainha ocorre em atividade de voo, uma única vez e com vários machos. O resultado disso é o seguinte: teremos uma rainha conhecida, com um estoque de espermatozoides de vários machos desconhecidos, e consequentemente um pedigree incompleto dentro da avaliação genética.

Teoricamente, a inseminação instrumental possibilita esse controle, mas a técnica por si só não garante o progresso genético nas gerações. O desafio para esse controle de acasalamento é a produção de zangões, filhos de rainhas selecionadas, a qualquer época do ano e na quantidade necessária para atender ao programa de melhoramento que é balizado pelo progresso genético no tempo. Desafio é o que não falta quando o assunto é melhoramento genético de abelhas.

 

O melhoramento genético de abelhas a campo, com as estratégias da Figura 1 em pleno funcionamento, em especial a utilização de avaliação genética por meio do modelo animal, incrementou em 13 vezes a produtividade de mel na Alemanha desde que foi implementada (Bienefeld et al., 2007). Esses valores não param de evoluir, pois o investimento no melhoramento genético por parte do governo, empresas e apicultores é constante (https://www2.hu-berlin.de/beebreed/ZWS/).

O Brasil nesse contexto tem um grande potencial a ser explorado, visto que apesar de estar entre os 10 maiores exportadores de mel do mundo, possui a menor produtividade dentre eles. O melhoramento genético de abelhas em nosso país, dentro de um plano nacional poderá potencializar não apenas a produção de mel, mas também outras características de interesse como a sobrevivência e a robustez, visto que a população de abelhas sofre declínio mundial.

 

Este não é um mercado tão novo assim, mas ainda é raro ouvirmos falar de zootecnistas que entram no segmento. Na sua avaliação, está em expansão ou ainda falta incentivo?

 

Eu diria que a demanda para o desenvolvimento desse mercado não é tão nova assim e que ele, em si, existe, mas não oferta ao produtor material testado por meio de avaliação genética animal assim como ocorre dentro da bovinocultura de corte em nosso país. Posso dizer isso, pois para a obtenção desse tipo de material é necessária a formação de bancos de dados reais, coletados a campo e que apresentem estrutura suficiente para estimativas precisas e confiáveis. A coleta de dados para essas avaliações normalmente são caras e levam um tempo muito longo. Para driblar isso, o uso de informação genômica nas avaliações genéticas tem sido proposto.

 

Essa tecnologia vem sendo amplamente utilizada em algumas espécies animais, entretanto em abelhas ainda não é uma realidade em função do alto custo de genotipagem de rainhas. E mesmo que em curto espaço de tempo a genotipagem fosse uma realidade no mundo, no Brasil ainda encontraríamos além do custo, outros limitantes visto que inexiste um monitoramento sistemático e controlado do material genético em nosso país.

 

O que de real temos no Brasil que envolve uma parte das estratégias de melhoramento genético de abelhas são empresas que comercializam rainhas virgens e fecundadas de qualidade e que se desempenham bem a campo. Essa é uma grande vantagem para a apicultura nacional alavancar, pois nos indica que existe demanda, e essa demanda pode ser ainda mais bem atendida se associada à seleção por meio de avaliação genética.

E claro, não poderia deixar de citar que temos vários centros de pesquisa e extensão no país que desenvolvem estratégias sobre genética, comportamento, qualidade sanitária, qualidade reprodutiva de rainhas, nutrição de abelhas, treinamento de apicultores, entre outros que são essenciais para o melhoramento genético em si.

O campo de atuação profissional para o Zootecnista é amplo, e o que precisamos é de pessoal disposto a enfrentar um mercado pioneiro com grande potencial de desenvolvimento e remuneração. Na extensão, o profissional deve estar preparado para atender a diversos níveis tecnológicos de demanda e introduzir o conceito de controle de informações zootécnicas nos apiários, pois assim a coleta de dados passa a ser uma realidade.

Na pesquisa, o desafio é desenvolver as estratégias da Figura 1, de forma que a campo isso seja passível de execução e traga ganho genético nas gerações. E no ensino, é mostrar o “caminho das pedras” para que o futuro profissional tenha autonomia, criatividade e bom desempenho de trabalho em equipe.

             

Existe alguma região do país que se destaque mais hoje em pesquisas neste sentido? De melhoramento de abelhas?

 

No mundo, podemos dividir as especialidades dentro do melhoramento de abelhas em três vertentes: a comercial, a de conservação e a de pesquisa. Em nosso país existem sim vários grupos que atuam principalmente na conservação e na pesquisa. Se eu for nomear, corro o risco de não falar sobre todos, o que não gostaria de fazer. No grupo aqui da UTFPR, estamos buscando unir as três vertentes propondo trabalhos conjuntos entre empresas que comercializam rainhas, dentro da conservação e buscando o desenvolvimento das estratégias mencionadas acima.

E para se ter uma ideia, para que isso aconteça não podemos ficar apenas em nossa universidade. Sendo assim, temos parceria com um centro de pesquisa em São Paulo, universidades dentro do Paraná, em Minas Gerais, São Paulo e também fora do país como nos EUA e Itália.

 

Toda sua trajetória acadêmica tem a presença constante das abelhas. É inegável, mais que o trabalho na área, o interesse pelo tema. De onde veio sua motivação para se debruçar nesse campo?

Em 1998, quando iniciei o curso de Zootecnia na Universidade Estadual de Maringá (UEM) nunca imaginei que fosse trabalhar com abelhas, muito menos com melhoramento genético animal. Acredito na importância do papel da universidade pública e gratuita, formada por profissionais competentes e dispostos ao treinamento de pessoas, pois foi por isso que tudo começou. Na época procurava um estágio para o período de férias e o setor de Apicultura, coordenado pelo Prof. Dr. Vagner de Alencar Arnaut de Toledo ofertou essa oportunidade.

Meu estágio durou as sessenta horas obrigatórias e mais todas as horas de toda a minha graduação. Todos os meus colegas estavam ligados aos setores de espécies com cadeias de produção mais bem estabelecidas como a bovinocultura de corte, de leite, suínos e aves… e foi exatamente por isso que vi na Apicultura uma oportunidade de trabalhar com pesquisa pioneira, que pouco se estudava sob o aspecto da produção animal.

 

A decisão pelo mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de Apicultura foi óbvia no meu caso, e o melhoramento genético veio com a orientação do Prof. Dr. Elias Nunes Martins e o grande aprendizado que seu grupo de pesquisa ofertou a mim, e a tantos outros alunos. Também durante esse período de pós-graduação, enquanto não fui bolsista, pude trabalhar a campo por dois anos prestando assistência técnica, ministrei aula em uma universidade particular e na UNESP de Dracena-SP.

A questão é que nunca fiquei sem ótimas oportunidades na área de melhoramento genético de abelhas. Pude transitar por vários setores e pude escolher com o que trabalhar. Em 2010 fui aprovada no concurso efetivo para professora na área de Melhoramento Genético Animal da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus de Dois Vizinhos, PR, onde desenvolvemos trabalhos de pesquisa sobre estratégias de melhoramento genético de abelhas. E a motivação? Essa vem do princípio de que trabalho bem feito, de um jeito ou de outro, sempre dá certo, independente da espécie ou área que se trabalha. Mas, se for com abelhas… isso tudo fica ainda melhor!

             

Seus alunos demonstram interesse pela área?

             

Sim, eles demonstram. A UTFPR campus Dois Vizinhos além da Zootecnia tem os cursos de Agronomia, Engenharia Florestal, Biologia, Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia, e Engenharia de Software. Além disso, mais três Programas de Pós-Graduação: Mestrado e Doutorado em Zootecnia (Unioeste e UTFPR), Agroecossistemas e Biotecnologia. Temos alunos dentro de todos esses cursos que se interessam e trabalham na área de desenvolvimento de tecnologias que envolvem as abelhas. Nossas parcerias hoje dentro do campus são multidisciplinares: grupo de pesquisa em Controle Biológico que é coordenado pela Profa. Dra. Michele Potrich, grupo de Estudos em Biometeorologia – GEBIOMET coordenado pelo Prof. Dr. Frederico Márcio Corrêa Vieira e Grupo de Pesquisa em Biologia Molecular com a Profa. Dra. Flávia Regina Barros de Oliveira na área de Reprodução Animal, afinal melhoramento genético e desenvolvimento de estratégias para a sobrevivência das abelhas caminham juntos.

Alunos de outros estados e de outros países já passaram por aqui em função do melhoramento genético de abelhas e até hoje seguem na área. Cito toda a estrutura anterior, pois o aluno ao se deparar com um grupo multidisciplinar, jovem e que tem por objetivo desenvolver novas tecnologias para o setor tem grande chance de se interessar e permanecer na área. Ou seja, não se faz nada sozinho. Até agora temos egressos atuando direta ou indiretamente em diversas áreas da Apicultura, como a extensão rural, carreira acadêmica dentro e fora do país, trabalhando com pesquisa em órgãos governamental e privado. O interesse vem crescendo e a colocação no mercado de trabalho também.          

 

Histórico profissional

 

             

Ano Título ou atividade Instituição (Depto./Unidade/Entidade)
2002 Graduação – Zootecnia Universidade Estadual de Maringá (Zootecnia – UEM)
2005 Mestre – Produção Animal Universidade Estadual de Maringá (PPZ-UEM)

Orientação: Prof. Dr. Elias Nunes Martins

Prof. Dr. Vagner de A. A. de Toledo

2009 Doutora – Produção Animal Universidade Estadual de Maringá (PPZ-UEM)

Orientação: Prof. Dr. Elias Nunes Martins

Prof. Dr. Vagner de A. A. de Toledo

2019 Pós-Doutorado – Melhoramento Genético Animal University of Georgia (UGA, EUA)

Supervisão: Profa. Dra. Daniela Andressa Lino Lourenço

 

Histórico profissional na área de Melhoramento Genético Animal

2005-2005: Professora, Centro de Ensino Superior de Maringá, CESUMAR

2005-2006: Zootecnista, Paikuara Central Del Paraguay Sa, PAIKUARA, Paraguai

2009-2009: Professora Celetista, Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” Campus de Dracena, UNESP, Brasil.

2010-2017: Professora Adjunta, Universidade Tecnológica Federal do Paraná

2018-2019: Professora/Pesquisadora Visitante, University of Georgia, EUA

2018-atual: Professora Associada, Universidade Tecnológica Federal do Paraná

2020-atual: Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia – Unioeste/UTFPR, sede UTFPR do campus de Dois Vizinhos

2021-atual: Membro efetivo do Conselho de Pesquisa e de Pós-Graduação da UTFPR (COPPG)

 

Disciplinas ministradas: (2010 – atual)

Graduação: Melhoramento Genético 1, Melhoramento Genético 2, Apicultura

Pós-Graduação: Princípios de Melhoramento Genético Animal, Melhoramento Genético de Abelhas, Avaliação Genética, Estimativas de Parâmetros Genéticos

 

Orientações na área de Melhoramento Genético Animal (2010 – atual)

Iniciação científica e tecnológica: 21

Orientações de outra natureza (TCC, Estágio curricular, etc): 57

Mestrado: 12

Doutorado: 2 (coorientadora)

 

Artigos completos em periódicos: 33

Capítulo de livro publicados: 6

 

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