Os números são preocupantes: de janeiro à primeira quinzena de setembro de 2020, o Pantanal teve mais de 2,9 milhões de hectares atingidos pelo fogo, segundo levantamento do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). O número representa cerca de 19% do bioma no Brasil. Além disso, durante os nove meses deste ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já registrou 15,4 mil focos de calor, que costumam representar incêndios no Pantanal. Este foi o maior número desde 1999, quando o monitoramento começou. A fauna e flora estão totalmente comprometidas.

(Foto/Reprodução: Mayke Toscano/Secom-MT)

O tema está sendo debatido, diariamente, em diversas camadas da sociedade. E na Zootecnia não poderia ser diferente, principalmente porque, segundo especialistas, a causa de grande parte destes incêndios tem origem no agro. Com o clima seco que atinge o Pantanal nesta época do ano, a situação se agrava e as queimadas acabam saindo de controle.

“O acúmulo de biomassa seca justamente com temperaturas próximas aos 40ºC. Com a umidade relativa do ar próximas aos 30% e rajadas de ventos fortes, são condições propícias aos incêndios nos pastos ou florestas”, explica o zootecnista, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e especialista em pastagens, Anderson de Moura Zanine.

Com todas estas informações em mãos, a reposta para a situação é clara: o uso do fogo no manejo precisa ser repensado. E o trabalho tecnificado dos zootecnistas pode ser uma alternativa ao problema.

“O que ocorre hoje no Pantanal mostra que os zootecnistas precisam caminhar muito junto aos produtores para mudar toda uma lógica de trabalho que algumas regiões ainda possuem. Nossa profissão busca otimização no agro, mas temos ferramentas suficientes para buscar estes resultados positivos prezando pela sustentabilidade”, completa o professor e presidente da Associação Brasileira de Zootecnistas (ABZ), Marinaldo Divino Ribeiro.

(Foto/Reprodução: Mayke Toscano/Secom-MT)

RAIZ HISTÓRICA

Segundo Zanine, o uso de fogo como ferramenta de manejo possui o que pode ser chamado de “embrião antropológico”, por ser uma técnica muito utilizada antigamente e que foi sendo passada de geração em geração. Hoje, entretanto, a prática é contestável, principalmente por refletir, na maioria das vezes, um manejo pouco tecnificado, além de poder comprometer ecossistemas.

“Propriedades rurais com uso de manejo intensivo, com tecnologias atuais, seja na agricultura ou pecuária, não usam o fogo como forma de manejo. É de conhecimento técnico-científico que as queimadas como forma de manejo provocam uma série de modificações de natureza física, química e biológica no solo. O uso contínuo do fogo tem como consequência a exposição do solo ao impacto das gotas de chuva, aumentando a erosão, além de interromper gradualmente o ciclo de retorno da matéria orgânica, diminuindo a capacidade de troca de cátions, a retenção de água, a perda de nutrientes do sistema, principalmente N, S e K, o que favorece o surgimento de plantas invasoras e acelera o processo de degradação das pastagens. Assim, o excesso de capim deve ser utilizado pelo pecuarista na forma de silagem ou feno, uma forma alternativa e de alto custo-benefício no período de seca”.

 

ALTERNATIVA

Hoje existem, em termos práticos, não apenas uma técnica isolada que é utilizada nas propriedades que optam por manejos zootécnicos de precisão, mas sim uma adequação técnica a ser implementada de forma pontual em cada fazenda. Zanine exemplifica no caso de fazendas que tem seu manejo de pastejo que levam ao subpastejo, ou seja, taxa de lotação abaixo da capacidade de suporto do pasto.

“Ocorre o acúmulo de biomassa, que no período de seca se transformará em combustível para queimadas, pois serão ‘macegas’ que se acumulam nas propriedades. Assim, com o manejo de pastejo ecofisiológico, essa biomassa será transformada em carne, leite e lã, gerando renda para o produtor investir, inclusive em acerros”.

Outra forma técnica de manejo que pode ser utilizada em caso de acúmulo de biomassa no final do período chuvoso é a conservação da forragem na forma de silagem ou feno, gerando novamente, cuidados no aumento indiscriminado de biomassa seca e, aumentando a renda para o produtor, como fonte de fibra de alto valor biológico em confinamentos de bovinos, ovinos, caprinos, dentre outros.

“O uso da uréia pecuária também é uma tecnologia das mais utilizadas, por ser simples, de custo interessante e de fácil aplicabilidade, uma vez que basta misturar a uréia com o sal mineral nos cochos que já existem nas propriedades. Essa técnica tem a função de aumentar o consumo de biomassa seca, assim, será reduzida a ‘macegas’ no período da seca, reduzindo o risco das queimadas, além de melhorar o desempenho animal nesse período crítico do ano”, detalha o professor.

Outras tecnologias também têm sido aplicadas de forma mais recente, como a integração lavoura-pecuária; integração lavoura-pecuária-floresta; rotação de culturas; misturas múltiplas de concentrado com sal mineral, entre outras. Em todos os casos, a Zootecnia de Precisão traz soluções que, além de evitar as queimadas, aumentam a taxa de desfrute do rebanho e a rentabilidade do produtor.

PREVENÇÃO A INCÊNDIOS NAS PROPRIEDADES

Enquanto o que ocorre no Pantanal está fora de controle e o manejo com fogo continua existindo no agro, a prevenção à incêndios é primordial. Segundo Anderson, a principal forma de prevenção é a utilização de aceiros, faixas em que a vegetação é removida, geralmente ao longo de cercas, matas, divisas, estradas rodoviárias, ou seja, nas possíveis áreas de risco da propriedade, servindo para impedir a passagem de fogo para dentro da fazenda.

“Estes, devem ser feitos no início do período de seca. Pode ser de forma manual, com uso de capinas, e/ou pode ser feito de forma mecânica, por meio de grade aradora e/ou lâmina do trator. No caso de condições de menor risco, 2 metros de largura em ambos os lados da cerca e, no caso de maior risco, aumenta-se para 4 metros”, detalha o zootecnista.

1 Comentário
  1. resougui 2 meses atrás

    fogo é a técnica dos incompetentes

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