Na primeira edição de 2020 do quadro Prosa com Zootecnista, a ABZ traz uma entrevista com a zootecnista Polyana Pizzi Rotta, professora-adjunta na Universidade Federal de Viçosa (UFV). Atuando na área de nutrição de vacas leiteiras e produção de novilhas de leite a pasto, Polyana está assumindo a coordenação-geral do projeto Família do Leite, realizado na Zona da Mata há sete anos como programa de extensão do Departamento de Zootecnia, com o apoio da Prefeitura de Viçosa e Cooperativa Cressol. E neste meio tempo, o projeto já traz resultados impressionantes, com 100% de empregabilidade dos acadêmicos que passaram pela iniciativa.

O projeto é desenvolvido ao longo de dois anos e além da parte educacional dos acadêmicos, a iniciativa tem um importante papel social, já que leva, após um intenso treinamento, atendimento técnico gratuito a pequenos produtores de leite que são referência na região.

Conheça mais sobre o trabalho abaixo.

ABZ: Quando surgiu o programa e com que finalidade?

Polyana: O programa surgiu em outubro de 2012. Ele teve como objetivo inicial o de treinar os estudantes a atividades práticas e a realidade da bovinocultura leiteira para que eles pudessem entender como é a gestão de uma fazenda, como é a assistência técnica de uma fazenda leiteira e também para levar assistência técnica a produtores de leite aqui da região da Zona da Mata, produtores estes que são pequenos e que não poderiam pagar pela assistência de um zootecnista, de um veterinário ou de um agrônomo. Nós damos essa assistência total para os produtores e, desta maneira, nós envolvemos as três áreas.

(Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

ABZ: Qual o funcionamento do programa? Que estudantes podem participar, o que fazem neste programa e quanto tempo ele dura?

Polyana: São 4 etapas. Para entrar no programa é feita uma seleção, com avaliação do currículo e também uma entrevista. Hoje podem participar alunos da Zootecnia, Veterinária, Agronomia, Agronegócio e também Laticínios. O aluno que é selecionado entra na etapa número 1, onde ele vai trabalhar em uma fazenda da universidade, dentro do campus, onde a gente produz 1.500 litros de leite de gado confinado, em sistema de free stall e compost. Então durante 6 meses, os alunos tem uma vivência prática do dia a dia de uma fazenda. E recebem 10 treinamentos teóricos e práticos.

Aí eles passam também por uma avaliação, prova, entrevista e acompanhamento durante estes 6 meses, e os melhores alunos passam para a segunda etapa, onde eles vão cuidar de setores específicos desta fazenda. Lá nós temos setor Vaca, setor Ordenha, setor Sanidade, setor Reprodutivo, Gestão e outros. Os alunos são divididos em grupos para cuidar destes setores. Aí eles tem também 10 treinamentos teóricos e práticos, uma reunião mensal para apresentarem resultados dos seus setores e para discutir as atividades.

Os melhores alunos seguem então para a terceira etapa e só a partir desta que eles atendem produtores, deixando o ambiente da universidade. Antes de ir para a fazenda de alguém, eles ficam um ano em treinamento na nossa fazenda.

Nesta etapa o aluno se torna o estagiário da fazenda e, dependendo do curso, ele pode atuar mais em uma determinada área. Por exemplo, quem é da Zootecnia, cuida mais da parte nutricional, de gestão, manejo de bezerro e novilha, pastagens, enfim.

Após seis meses vem a quarta etapa, onde eles passam a ser os estagiários responsáveis pela fazenda. Em todas as visitas são acompanhados por um técnico já formado para que a gente possa dar um melhor atendimento ao produtor.

(Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

ABZ: Após passarem por este programa, qual retorno estes acadêmicos dão à sociedade?

Polyana: Após os estudantes passarem pelo programa, o retorno à sociedade vem de diferentes maneiras. Ele vem durante o próprio programa, porque o aluno vai trabalhar em propriedades que não poderiam pagar por esta assistência, então isso já é um retorno para aqueles pequenos produtores. E além disso, a gente capacita melhor esse estudante para que quando ele se forme ele não seja um número a mais na taxa de desemprego. Então para a sociedade, a gente dá um profissional melhor capacitado, mais treinado.

Hoje nós temos 100% de empregabilidade em sete anos de programa. Nenhum aluno que passou com a gente pelos dois anos está sem emprego. Então a gente forma melhores profissionais que vão atuar em prol da pecuária leiteira e também da pecuária de corte, já que também temos fazenda para esta área.

 

ABZ: Enquanto zootecnista, qual o sentimento pra você de encabeçar uma iniciativa como essa?

Polyana: Antes de mais nada, nós somos dois professores. O programa foi iniciado pelo professor Marcos, lá em 2012, e hoje eu estou assumindo a coordenação-geral porque ele está indo embora para os Estados Unidos.

Eu acho que a gente dá a oportunidade do estudante ter práticas, porque a gente vê que práticas nas instituições de ensino, de maneira geral, são em um número inferior ao que deveriam ser. E o estudante só vai aprender fazendo, vivenciando, vendo os problemas do dia a dia. Sem isso, dificilmente tem o aprendizado como se deve ter. Então como zootecnista, eu acho que o trabalho engrandece muito essa parte do ensino, dos estudantes saírem com uma formação melhor, e por outro lado a gente envolve todo a sociedade e a comunidade da nossa região, de pequenos produtores, que as vezes tiram 100, 200 litros de leite, e que não teriam acesso as informações e tecnologias que a universidade gera.

Hoje nós atendemos 25 produtores que são referências, então eles começam a fazer uma prática de melhor manejo, o vizinho vê, copia, e isso vai disseminando o conhecimento.

(Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

ABZ: Na sua opinião, qual a importância de estimular acadêmicos com programas que atendem áreas específicas, como a bovinocultura de leite?

Polyana: Nós fizemos um levantamento há dois anos do que os nossos estudantes que se formaram estavam fazendo. E nós nos surpreendemos porque havia uma grande número que estava trabalhando com a bovinocultura de leite e em segundo lugar com a bovinocultura de corte. Na nossa região a gente tem esse apelo do leite muito forte. A maioria dos alunos já tem um pé na roça, com um tio, um pai, um avô, e eles já trazem essa vontade de aprender sobre a bovinocultura leiteira. No entanto, o que a gente tem aqui na região é um sistema de produção muito atrasado. São produtores mais antigos, é uma região também como muitas montanhas, relevo complicado, que dificulta a tecnificação. De qualquer maneira, o que a gente faz, é adaptar. Levar ao produtor técnicas adaptáveis a sua realidade para que ele consiga melhorar a sua produção e sua renda.

Como zootecnista, eu vejo que a bovinocultura leiteira tem um apelo social muito grande, visto que toda cidade tem produção de leite, em Minas Gerais principalmente, e com isso a gente consegue manter as famílias nas fazendas, trabalhando também com a sucessão familiar e permanência na atividade. Uma questão de impulsionar o ganhar dinheiro com a atividade e não só trabalhar por trabalhar.

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