Em mais uma edição do quadro Prosa com Zootecnista, a ABZ traz agora uma verdadeira aula sobre a preservação do boi pantaneiro com o especialista Marcus Vinícius Moraes de Oliveira, zootecnista formado há mais de 20 anos, professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), além de fundador e gestor do Núcleo de Conservação dos Bovinos Pantaneiros de Aquidauana (NUBOPAN), no Alto Pantanal Sul-Mato-Grossense.

 

ABZ: Qual a importância de se preservar o boi pantaneiro e o que significaria uma eventual perda desta raça?

Marcus: O bovino Pantaneiro (Bos taurus taurus) pertence à um grupo genético oriundo da miscigenação de bovinos europeus trazidos para a região do Pantanal durante a colonização da América do Sul, inicialmente pelos Espanhóis e, posteriormente pelos Portugueses. Assim, ao longo dos séculos, estes animais adaptaram-se às condições climáticas e nutricionais da planície alagada. Desta forma, a seleção natural resultou num grupo genético rústico e apto para sobreviver em condições de estresse calórico, hídrico e alimentar, apresentando elevados índices de natalidade e baixa mortalidade.

Entre as características adaptativas do bovino Pantaneiro citam-se a tolerância as temperaturas ambientais extremamente elevadas, a resistência à carrapatos, a capacidade de proteger a si próprio e às suas crias da predação das onças, a habilidade de pastorear uma ampla variedade de forrageiras nativas, incluindo as gramíneas submersas na água, e a resistência dos cascos frente as condições intermitentes de seca e alagamento.

Vale ressaltar que no passado, o bovino Pantaneiro foi a base da economia do Pantanal. Todavia, a introdução de animais zebuínos e taurinos de outras procedências e a consequente miscigenação fizeram com que o bovino Pantaneiro perdesse o esplendor de outrora. Do contingente antigo, superior a 3 milhões de cabeças restam hoje cerca de 500 indivíduos puros em ambos os Estados de Mato Grosso (MT) e Mato Grosso do Sul (MS), e de mais algumas dezenas encontrados em estado feral na região de Porto Jofre, em Mato Grosso.

Assim, devido ao número reduzido de animais, esta raça brasileira, altamente especializada e adaptada às condições ambientais peculiares e situações hostis de criação no Bioma Pantanal, encontra-se vulnerável e ladeia as margens de um iminente desaparecimento.

Neste contexto, infere-se que o verdadeiro queijo Nicola, um produto típico do Pantanal, preparado com leite das vacas Pantaneiras e que não necessita de refrigeração para sua conservação, também está ameaçado de extinção.

Hoje um dos maiores problemas para a perpetuação do gado Pantaneiro está relacionado à pequena variabilidade genética e os efeitos deletérios da endogamia, ou seja, no acasalamento de animais aparentados, com consequente potencialização do aumento dos riscos da manifestação de alelos recessivos e indesejáveis.

Com relação ao que significaria uma eventual perda da raça Pantaneira, infere-se que o salvamento de uma raça em extinção constitui uma ação de alta relevância para a preservação da biodiversidade genética. A perda desta espécie seria irreversível e representaria um prejuízo incalculável para a ciência e para a pecuária brasileira. Pois, características ímpares de rusticidade, adaptabilidade às condições climáticas e resistência a doenças e parasitas, adquiridas ao longo dos séculos de seleção natural, seriam perdidas para sempre, com prejuízos para os programas de melhoramento genético animal, a partir da transferência dessas características para raças sintéticas mais produtivas que as atualmente conhecidas. Assim, se nada for feito hoje, as opções serão cada vez mais limitadas no futuro; e infelizmente, o verdadeiro valor de uma raça, na maioria das vezes, só é reconhecido quando a mesma está extinta.

(Foto: Arquivo pessoal/Marcus Vinicius)

 

ABZ: Há quanto tempo você desenvolve trabalhos nesta área?

Marcus: Os trabalhos desenvolvidos com os bovinos Pantaneiros iniciaram no ano de 2009, no Curso de Zootecnia da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul/Unidade Universitária de Aquidauana (UEMS/UUA), por meio da criação do Núcleo de Conservação de Bovinos Pantaneiros de Aquidauana (NUBOPAN), localizado no município de Aquidauana, em MS, na região do Alto Pantanal Sul-Mato-Grossense.

Esta ação foi viabilizada por meio de um convênio com o Centro de Pesquisa do Pantanal (CPP) e do Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), sendo naquela época adquiridas 15 bezerras recém desmamadas da Embrapa Pantanal. Ao longo dos anos, o trabalho do NUBOPAN foi sendo fortalecido mediante parcerias efetuadas com a Associação Brasileira de Criadores de Bovino Pantaneiro (ABCBP) e com diversas Fazendas, em ambos os Estados de MT e MS. Além do fomento de diversas instituições como a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (FUNDECT), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Rede de Pesquisa Pró-Centro-Oeste, do Ministério da Educação (MEC), e da Empresa Real H & Cia LTDA, Nutrição e Saúde Animal / Homeopatia de Resultados.

Atualmente, o NUBOPAN possui cerca de 180 animais e se tornou uma referência em termos de variabilidade genética da raça Pantaneira, haja vista que existem exemplares de todos os criatórios conhecidos.

 

ABZ: Quais os principais estudos/trabalhos você desenvolveu na área?

Marcus: O NUBOPAN tem como missão primordial promover a conservação do gado Pantaneiro, de modo a preservar este material genético para as gerações futuras; bem como obter informações técnicas sobre a raça, como ganho de peso, produção de leite, resistência a parasitas, etc.; afim de identificar e selecionar animais zootecnicamente superiores visando à formação das Linhagens de Carne, Leite e Rusticidade.

Visa também localizar e resgatar exemplares de bovinos Pantaneiros que estão sendo criados incognitamente nas Fazendas, como animais mestiços ou sem raça definida, formando um Banco de Germoplasma vivo e promovendo uma multiplicação destes animais por meio de biotécnicas reprodutivas, de modo a aumentar a variabilidade genética dos animais criados no NUBOPAN, e deixando-os disponíveis para os produtores parceiros.

Ressalta-se que os esforços envidados para a geração de informações técnicas sobre o potencial genético dos animais pantaneiros também têm sido fundamentais para os criadores e para a comunidade científica.

Neste contexto, o NUBOPAN através de uma visão holística, com ações de caráter interinstitucional e de abrangência multidisciplinar, tem fomentado significativamente a preservação da biodiversidade genética da raça Pantaneira, um animal com DNA genuinamente europeu e magnificamente adaptado às condições ambientais do Pantanal; e simultaneamente promovido a conscientização da população mato-grossense sobre a importância da conservação de raças locais naturalizadas, no caso a raça Pantaneira, com perspectivas de uso em sistema sustentável de manejo na região do Pantanal em função de seu alto grau de adaptabilidade a esse ambiente singular.

Paralelamente, o NUBOPAN, também tem auxiliado no resgate do queijo Nicola, um produto artesanal, que não necessita de refrigeração para sua conservação e com características organolépticas e nutricionais peculiares, sendo comumente consumido pelos turistas que visitam o Pantanal. Nesse contexto, tendo em vista que o verdadeiro queijo Nicola é confeccionado com leite oriundo de vacas pantaneiras, a conservação da diversidade genética do gado pantaneiro também constitui a base do programa de valorização desse queijo.

 

ABZ: Como é a disposição da equipe do NUBOPAN?

Marcus: Sou o fundador e gestor do NUBOPAN, desenvolvendo pesquisas na área de nutrição, com foco na geração de informações sobre o desempenho zootécnico dos animais. E conto com o apoio dos professores do Curso de Zootecnia da UEMS/UUA Dr. Andre Rozemberg Peixoto Simões, da área de economia rural; Dra. Carolina da Silva Barbosa, da área de sanidade; Dr. Dalton Mendes de Oliveira, da área de qualidade da carne; Dra. Fabiana de Andrade Melo Sterza, da área de reprodução; e Dr. Francisco Eduardo Torres, da área de pastagens. Bem como da professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Dra. Dirce Ferreira Luz, responsável pelas análises da qualidade físico-química e microbiológica do leite das vacas Pantaneiras.

 

ABZ: Com os trabalhos que vem sendo desenvolvidos no Estado neste setor, vocês já possuem dados estatísticos de um aumento da população de bois pantaneiros? Há uma comparação, por exemplo, de quanto era essa população há cinco anos e de quantos existem hoje, por exemplo?

Marcus: O amplo trabalho exercido pelo NUBOPAN em parceria com a Associação Brasileira de Criadores de Bovino Pantaneiro (ABCBP) e demais instituições como o Centro de Pesquisa do Pantanal e Embrapa Pantanal, tem conseguido ao longo dos anos estimular de maneira significativa a manutenção dos rebanhos de bovinos Pantaneiros criados nas Fazendas, bem como conscientizada a população e o Governo, tanto em nível Estadual como Federal, da importância da raça Pantaneira para a pecuária brasileira.

Assim, esta raça genuinamente brasileira encontra-se protegida pela cidade de Aquidauana, MS, bem como pelos Governos dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, como patrimônio genético e cultural do Pantanal.

Atualmente, o seu credenciamento como raça bovina localmente adaptada está sendo expedido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

 

ABZ: Além de você, existem muitos zootecnistas atuando nesta área no Estado?

Marcus: Sim, além do grupo de professores que atuam no NUBOPAN, existem vários zootecnistas que tem trabalhado com o gado pantaneiro, em especial, aqueles ligados diretamente as pesquisas desenvolvidas no NUBOPAN, em nível de Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado. Além de um grande número de alunos de graduação, que desenvolvem pesquisas de iniciação científica e trabalhos de conclusão de curso.

 

ABZ: Quais são os impactos e benefícios do trabalho desenvolvido do NUBOPAN?

Marcus: As pesquisas desenvolvidas no NUBOPAN têm contribuído para a conscientização da população sobre a importância da conservação das raças locais, no caso a Pantaneira, com perspectivas de uso em sistema sustentável de manejo na região do Pantanal, em função de seu alto grau de adaptabilidade. Este manejo sustentável indiretamente também levará à conservação de áreas naturais do Pantanal, contribuindo assim para a preservação ambiental.

Quanto ao potencial econômico da raça para produção de carne, infere-se que se cometeria um grande erro, se fosse efetuada a comparação dos índices zootécnicos do Gado Pantaneiro com as raças atualmente disponíveis no mercado. Isso porque essas raças foram exaustivamente melhoradas pelo homem, ao contrário do gado Pantaneiro que permaneceu praticamente em processo de seleção natural. Assim, é necessário conhecer o seu potencial genético e verificar sua capacidade em auxiliar na geração de raças sintéticas mais produtivas que as atualmente criadas pelo homem. É também notório que o cruzamento entre animais taurinos (europeus) com zebuínos (indianos) leva a produção de híbridos com elevado potencial para ganho de peso. Todavia, é essencial pensar também na questão da precocidade de acabamento, ou seja, na gordura de cobertura, e na gordura de marmoreio responsável pelo sabor da carne. E nesse quesito o gado Pantaneiro tem muito que contribuir, em função do excelente acabamento de carcaça e da carne com qualidade diferenciada tanto em suculência como na maciez. Outro fato também interessante é que em condições de estresse nutricional o gado Pantaneiro sofre menos, e se suplementado, responde mais eficientemente que outras raças zootecnicamente superiores.

O potencial econômico do gado Pantaneiro para a produção de leite, observados nos trabalhos desenvolvidos no NUBOPAN, também tem sido muito significativo para o Pantanal, haja vista a identificação de novilhas primíparas com produções superiores a 12 litros no pico de lactação.

 

ABZ: Quais as principais características da raça Pantaneira?

Marcus: Fenotipicamente o gado Pantaneiro pode ser caracterizado como um animal de menor estatura, devido as pernas serem curtas, porém possui um tronco robusto. A altura média das vacas adultas é cerca de 1,30 m e pesam em torno de 450 kg. Possuem uma cabeça em formato triangular, olhos redondos, orelhas pequenas localizadas acima da linha dos olhos, o dorso é retilíneo e não possui cupim e nem barbela ou umbigo proeminente.

Possui chifres muito elegantes e em diversos formatos, existem 13 tipos com 7 cores diferentes. A pelagem também é muito variada, sendo identificadas 47 cores diferentes e mais 14 particularidades, porém há uma predominância da cor baia e castanha, sendo esta possivelmente uma característica de mimetismo com a paisagem do Pantanal, especialmente na época de inverno onde a paisagem vegetal se torna mais amarelada devido a seca. Possivelmente essa coloração ajuda a camuflar o animal na paisagem, dificultado a predação por onças. Ressalta-se ainda que a cor da pelagem do animal também varia com a época do ano e com o tipo de forragem que está comendo, assim, num determinado momento ele pode estar com a cor brasina (com listras negras pelo corpo) e no outro voltar com a cor baia (amarelo claro). Possuem pêlo fino e sedoso e a pele é pigmentada, geralmente negra. O leite é saboroso, gordo e de cor amarela, e a carne é macia, suculenta e apresenta bom marmoreio.

1 Comentário
  1. Fábio Edir dos Santos Costa 2 meses atrás

    Parabéns pelo seu trabalho e da sua equipe…

    Um forte e fraterno abraço

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